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DESENVOLVIMENTO , ATO DE CONSCIENTIZAÇÃO
Paulo Cesar T. Ribeiro*




Conversando sobre a qualidade dos relacionamentos interpessoais nas empresas com colegas da área de consultoria e de Recursos Humanos, de repente plagiei uma das mais sinceras frases de Fernando Pessoa, ao desabafar:

- “Arre! Estou farto de semideuses!... Esses caras querem ir prá Pasárgada e lá ser o próprio rei!..."

Mais tarde, repensando sobre o assunto, fiz uma reflexão que gostaria de dividir com vocês, pois acabei por perceber que quanto mais eu me envolvo com a natureza humana, mais acredito que o homem devém, isto é, transforma-se insistentemente em seu caminho ontológico para ser livre. Percebi, também, que muitas questões que nos fazem e que são típicas dos treinamentos comportamentais como “O que me faz agir ou pensar desta ou daquela forma?” representam o real ponto de convergência pois as respostas sempre representarão um instigante meio de ampliar o conhecimento de si e do mundo e, com isso, edificar a própria liberdade. Vibrei com essa conclusão pois me motiva ainda mais a manter-me no caminho profissional que escolhi em Recursos Humanos, que é o de propiciar o melhor ambiente e condições para o crescimento humano a partir do autoconhecimento ou da ampliação da consciência, se assim preferimos chamar.

Alguns trabalhos são particularmente formidáveis e gratificantes, como o que aborda as relações interpessoais e os conflitos nas empresas, em conseqüência das manifestações de crescimento que testemunhamos. Uma delas é o impacto da descoberta da própria falibilidade nas relações entre membros de um teamwork e a isso reagir afetiva e positivamente. Parece simples mas, para alguns, a percepção subseqüente equivale ao engendramento de um novo ser, o qual não representa mais os conceitos e os valores que foram sutil e arduamente apregoados por muitos anos. Equivale, também, à unicidade e ao entendimento da experiência afetiva e de um fato em si, distintamente, como se pesasse, solenemente, a segurança do conhecimento, onde a palavra é a verdade e nunca sofre abalos. Outra manifestação que testemunhamos sobre a qualidade das relações humanas em ambientes organizacionais, é o reconhecimento de que a emoção de uma eventual ruptura no relacionamento entre pessoas, ao ser exposta e intensamente vivenciada (numa experiência real e NUNCA em treinamentos), é exatamente o que possibilitará que, em seguida, “juntem-se os cacos” e que se componha aquilo que podemos chamar de “ordem primordial”, preparando, pois, os envolvidos para que tornem-se mais fortes e capazes de não mais frustrarem-se devido a vela frente à sombra, afinal, o que acontece com o homem e o mundo em geral, depende exclusivamente da personalidade individual, já que “toda vida é individual e no indivíduo sozinho é que se deve buscar o significado último”.

Por isso, amigos, é que, nas atividades de T&D que conduzo nas empresas afirmo continuamente, sem pejo e sem medo, que o homem é o responsável por sua vida. Evidentemente estou, assim, estimulando que cada um se aproprie de todos os seus próprios sentimentos e atitudes, mesmo que seja algo que incomoda, como a mágoa, um dos sentimentos mais presentes (porém, dos mais negados) nos relacionamentos interpessoais em ambientes agressivos, mas que, às vezes, pode ser fruto de uma idealização prévia, baseada no vínculo de confiança. É certo, contudo, que só é possível sentir-se magoado ou traído com aquele a quem se gosta ou ama, e que quanto mais amor e lealdade houver, mais forte será a dor, infelizmente com um lamento amargo acompanhando a pessoa. A pergunta “o que me faz agir ou pensar desta ou daquela forma?” encontra, neste específico caso, uma resposta na inconsciente inocência infantil que, por sua vez, remete a pessoa à idealização anterior ao fato, e que provavelmente tem raízes muito profundas, históricas e fixadas há muito tempo. Deve-se deixar bem claro que não se trata, com isso, de aniquilar a “criança dentro do indivíduo”, mas entendê-la em sua vida adulta, nas suas relações, em suas histórias, suas conseqüências, entendê-las nos símbolos como “O Cajado” de “O Louco”, a posição de “O Enforcado”, e refletir, pensar criticamente sobre o seu retorno, as suas fantasias, e abandonos.

Mas, enfim, pensando-se em desenvolvimento de pessoas e de líderes nas organizações, “qual o significado das coisas?” Bem, essa é uma pergunta de muitas respostas e uma delas é que viver é fazer parte de um drama cujo enredo leva inexoravelmente à conscientização, pois deixando-se de ter a ilusão de ser inatingível, torna-se “humanamente (e finalmente) homem”, logo (espera-se), ajustado às expectativas da sociedade moderna no que se refere à modelos de liderança e condições para a produtividade de equipes de trabalho! Optamos por uma abordagem em empresas que compromete e vincula o saber às regras do conhecimento, à sutileza encoberta do descobrir e devenir. O próprio homem é o contrapeso que determina o movimento da balança, e por esta razão, dispensar o esforço de elaborar o significado das coisas é “morder o próprio rabo”, ou seja, é trair os próprios ideais! De nada adianta, portanto, prometer não comportar-se dessa ou daquela maneira (morder o rabo) pois toda promessa só é mantida até certo ponto, aquele da necessidade de proteção, já que revela aquilo que verdadeiramente se é. Quando se rompe a promessa, divulga não mais a persona ou a fachada da pessoa, mas vai além, ao ego protegido, sendo este revelar, causador de dor. A pessoa magoada, que pode muito bem ser um funcionário de sua empresa, tendo compreendido que a sua dor está relacionada ao sentimento que tem pelo “magoador” pode sentir-se impelida a perdoar. Mas, em essência, não há perdão à medida em que o ego não perdoa nunca: mitifica, mistifica e reestrutura-se. O perdão, ainda assim, é desejado e é neste desejo que reside o valor da conduta, sendo finalmente uma ação exclusivamente racional e unicamente consciente. Chega-se a isso após viver uma ilusão com respeito ao que realmente aconteceu, sendo esta a mais aberta das chagas. O reencontro autêntico e efetivo só ocorre em alguma forma de reconhecimento integral do outro, capaz de haver através do amor - puro, verdadeiro e sem fantasias.

Percebe-se que incessantemente há modificações na consciência do homem. Questiona-se “que sei eu do mundo?”... Apenas que o que move o homem é a emoção e a vontade de descobrir coisas que o faça sentir-se livre. Ao afirmar que “não há caminhos, faz-se caminhos ao andar”, o poeta alerta sobre a difícil empreitada (de cortar, cavar, aplainar, planejar, refletir, direcionar, comandar, escolher,...) de construir uma estrada e, sobretudo, nela trafegar. Afigura-se neste alerta, um prazer enorme de ir aonde se quer ir e chegar aonde se quer chegar. Por isso, amigos, pensando bem, o melhor é não ir para Pasárgada porque lá, corre-se o risco de ser amigo do Rei!

* Paulo César T. Ribeiro é psicólogo, consultor de empresas, “coach" e "headhunter", conceituado entre os melhores apresentadores por sua reconhecida experiência em treinamentos voltados ao comportamento gerencial e ao desenvolvimento de líderes, equipes e outros diversos temas. Diretor da CONSENSOrh. Email: paulo.ribeiro@conrh.com.br. Fone: 11.50878897