GERÊNCIA: SEM
FELICIDADE NÃO HÁ EFICÁCIA
Paulo César T. Ribeiro*
Uma de nossas missões como profissionais de
Recursos Humanos, é a de promover o
desenvolvimento dos líderes das nossas
empresas. Sendo assim, não podemos nos
esquecer do gerente-Hamlet* (veja
significado abaixo), aquele que ocupa uma
posição de liderança mas que ainda não
encontrou a felicidade no cargo.
É muito comum sentir um pouco de raiva
quando se encontra esse personagem numa
empresa. Tende-se a vê-lo “chorando de
barriga cheia” ao mesmo tempo em que ele se
esforça para mostrar pra todo o mundo que
“era feliz e não sabia”. O estágio seguinte
da reação é o da compreensão e compaixão
para com o colega de trabalho. É nesse
estágio que as pessoas tendem a dar “dicas”
para que o Hamlet torne-se feliz em suas
funções e cargo de liderança. Às vezes, dá
certo; noutras, estimulam novas reações de
ambos, que podem acarretar em discussões e
agressões pessoais.
A área de Recursos Humanos tem, sabiamente,
reconhecido que desenvolver profissionais
inclui essa preocupação, ou seja, a de
contribuir para que gerentes, chefes, etc.
sejam felizes em suas atividades, seja pelo
reconhecimento do seu potencial e
necessidade de capacitar-se nos aspectos
ainda não desenvolvidos, seja pela
compreensão de seus papéis ou qualquer outro
caminha que se faça valer. Passou-se a dar
uma atenção especial e estruturada aos
gerentes-Hamlet*, já que ao serem
promovidos, foram considerados com potencial
para contribuírem significativamente com os
resultados da empresa.
A primeira maneira de se contribuir com um
gerente-Hamlet* é não reforçar a sua
contínua lamúria, esse queixume interminável
sobre o peso de suas tarefas. Ele deve
conscientizar-se que, ao assumir a nova
posição e desafio, passou a um nível
diferenciado nas relações com as pessoas,
adquiriu responsabilidades pela
administração de recursos de diversos tipos
e, além de tudo, deve dar a sua parcela de
contribuição com os resultados empresariais.
Não há castigo mais terrível que o trabalho
inútil e sem esperanças, e essa é a carga
deste gerente enquanto mantiver o seu
queixume. Para sair desse sofrimento, o
gerente-Hamlet* tem que se esquecer do
passado e focar o presente para construir o
futuro. Deve descobrir a beleza e o prazer
de estar numa nova situação, reconhecer que
ajustou-se às mudanças com as quais lidou e
que o prêmio que recebeu é um alimento para
a sua capacidade criadora; ele está num novo
patamar e deve trabalhar para superar os
obstáculos e encontrar a sua felicidade.
Nesses termos, as suas dificuldades e
frustrações devem ser resolvidas consigo
mesmo, sem agredir os funcionários ou
desconsiderar a importância da sua equipe,
infelizmente algo que é usado pelos casos
mais graves.
As abordagens comportamentais estão se
tornando, cada vez mais, preciosas
ferramentas na busca de resultados pois a
expansão de consciência dos profissionais os
torna melhores e motivados pelas metas de
suas organizações. A consciência e a
disciplina interior são um convite à atenção
e ao esforço bem direcionado. O
gerente-Hamlet*, por não ser uma pessoa
feliz, não está preparado para esse caminho.
Felicidade é fruto de vontade própria! É
algo interior, íntimo, que faz a pessoa
decidir se chegou a hora ou não de ser feliz
com alguma coisa; é ter uma misteriosa
certeza de que, aconteça o que for, será
feliz! Gerentes-Hamlet* sentem medo e isso
os torna infelizes. Esperam que a felicidade
caia do céu, deixando, portanto de se
empenharem na inevitável e inexorável luta,
na qual é preciso estar sempre pronto a
contestar o que quer que seja, tanto no
plano individual como no social: é essa
disposição que permite enfrentar mudanças
(voluntárias e involuntárias) sem sentí-las
como ameaças.
Uma outra forma de ajudar um gerente a
deixar de ser gerente-Hamlet* é estimular a
sua pró-atividade: as pessoas felizes agem!
Suas ações são tanto instrumento de
sensibilidade, voltadas para o
enriquecimento interior, quanto meios de
provocar mudanças no mundo exterior. Seu
esforço se dá no sentido de encontrar um
saudável equilíbrio entre a aceitação
daquilo que existe e a possibilidade de
introduzir modificações. Embora para
realizar-se seja gratificante dedicar-se de
corpo e alma mesmo aos projetos mais
humildes, isso não exclui a busca da
perfeição, que é prazer para si mesmo e para
os demais. Gerentes felizes não se enquadram
entre os que vêem o trabalho apenas como
lucro, lucro com poder, poder/felicidade.
Para um gerente feliz, o lucro não exclui a
criatividade e é uma necessidade ao mesmo
tempo social e individual.
Observa-se que o Gerente-Hamlet* não tem
amigos. Apenas entre os felizes é que se
nota uma significativa insistência sobre o
valor da amizade e do amor; e a importância
desse fato é indiscutível pois o estudo do
comportamento humano confirma sobejamente a
importância das sólidas relações afetivas
para o equilíbrio da personalidade e a
realização no trabalho. Aliás, o tema
“competência emocional” ou "quociente
emocional” para a felicidade do gerente é de
tanta importância que deverá ser tratado num
novo artigo dedicado exclusivamente a isso.
Se é verdade que ser feliz exige esforço e
vontade, vale a pena considerar que fraqueza
de vontade por nascimento é coisa que não
existe. A força de vontade, inerente ao ser
humano, não é estática, se apresenta em cada
caso como função de vários fatores, a saber:
conhecimento claro dos objetivos, decisão
consciente e um certo treino.
Gerentes-Hamlet* parecem dominados pela
fórmula fatalista: “a vida é assim mesmo”,
ou “assim tinha que ser”. Não sabem que esse
fatalismo neurótico significa uma fuga à
responsabilidade para consigo próprio e, em
decorrência, com os que os rodeiam e com a
empresa que o contratou. A atitude frente à
vida de uma pessoa tem certa margem de
liberdade de movimento em face do que há
nela, assim, como já comentado nesse artigo,
trata-se de optar, por vontade própria entre
ser feliz ou não.
Se, depois de tudo, alguém duvidar que a
procura da felicidade compensa, nada mais
convincente do que recentes constatações de
pesquisadores do National Cancer Institute,
dos EUA. É sabido que stress, emoções e
choques no plano afetivo subvertem nosso
equilíbrio bioquímico, e que a capacidade
dos tecidos de se defenderem dessas ameaças
varia de um para outro indivíduo. É
igualmente sabido, conforme corroboram esses
estudos, que os felizes são setenta vezes
menos suscetíveis de contrair doenças,
inclusive câncer.
* Gerente-Hamlet é uma expressão criada pelo
autor, inspirada no triste e melancólico
personagem de Shakespeare o qual, por não
definir o seu próprio papel, torna-se
melancólico e deprimido. Sua frase mais
conhecida é: “Ser ou não ser, eis a
questão!”.
* Paulo
César T. Ribeiro é psicólogo, consultor
de empresas, sócio-consultor e palestrante
da CONSENSOrh (11.5087-8891, conrh@conrh.com.br).