LIDERANÇA HUMANIS E EVOLUÇÃO
Paulo César T. Ribeiro*
Como sempre, janeiro é um mês em que as
pessoas determinam a si mesmas, o que
passamos a chamar de “resoluções de
ano-novo”. São, costumeiramente, resoluções
positivas e que representam um desbaste
adicional na inexorável e necessária
lapidação de cada pessoa em busca da sua
plenitude humana. Meu cotidiano tem como
foco de trabalho, o ambiente empresarial.
Nele, costumo ouvir resoluções diversas
como: “vou me tornar um colega melhor”, “Vou
compartilhar meus conhecimentos”, “Vou
crescer profissionalmente”... São, com
certeza, resoluções merecedoras de elogios,
mas, face ao retrato da realidade social do
nosso país, optei por cumprimentar, de modo
especial, os que, a despeito de viverem
intensa e quase estressantemente o trabalho
e suas pressões características, decidiram
por contribuir com o aperfeiçoamento do
humanismo, exaltando os sentimentos de
fraternidade e solidariedade. Os elogios
serão mais efusivos se esses profissionais
forem líderes em suas empresas, pois o
humanismo tornar-se-á consistente entre nós,
se for uma atitude incorporada ao conjunto
de competências de liderança. Refiro-me a
uma liderança que enfatize o valor
intrínseco do trabalhador, o seu potencial
de desenvolvimento, sua singularidade e
originalidade bem como o respeito às
diferenças entre as pessoas.
É uma tendência forte, o “stablishment”
desta forma de exercer a liderança, a qual
considera a abertura à experiência como uma
característica da criatividade
auto-realizadora e identifica a criatividade
como saúde emocional e expressão das pessoas
normais no ato de se auto-realizar.
Totalmente humanista, trata-se de uma
liderança que reputa a interação
pessoa-ambiente como fundamental para a
criação; quero dizer com isso, que não basta
apenas o impulso em auto-realizar-se:
“também as condições presentes na sociedade,
a qual deve possibilitar à pessoa liberdade
de escolha e ação”, fazem parte do processo
criativo. Entretanto, o ritmo dessa
tendência deve ser acelerado, sob pena de
uma demora maior na correção das injustiças
sociais em nosso país.
É sabido que a estrutura econômica
condiciona e determina preponderantemente as
relações sociais. Quando essa estrutura
sofre mudanças profundas, alteram-se as
relações de produção, acumulam-se novos
conhecimentos, surge uma nova consciência
social e a necessidade de transformações na
superestrutura da sociedade como um todo. A
isso sucede a influência no planejamento dos
governantes escolhidos pelo povo, o mais
interessado nas melhorias sociais. A nova
consciência social tem acelerado, cada vez
mais, a intensidade das conquistas atuais
tendo o desenvolvimento tecnológico exigido
que as transformações das relações de
produção e organização política operem na
mesma intensidade. Tal relação, porém, não
ocorre, porque as reações do comportamento
social, historicamente, imprimem um
movimento mais lento ao seu próprio
movimento. O ponto de maior preocupação, a
meu ver, está no aproveitamento deste
fenômeno sociológico, por parte dos
governantes, diminuindo o investimento na
produção industrial e atividades econômicas,
desperdiçando a capacidade instalada no país
e retardando a conseqüência positiva que o
espetáculo do crescimento pode gerar para a
massa necessitada. Povo com fome busca,
exclusivamente, sobreviver, não havendo,
assim, um ambiente propício para o
aperfeiçoamento do humanismo pleno e ideal
na sociedade. Pelo contrário, estimula a
selvageria da competição individual num
clima favorável à conservação do controle
autoritário pelo uso do assistencialismo
enganador e anti-desenvolvimentista.
A mudança do Brasil deve começar dentro das
empresas, a partir da ampliação da
consciência social e do aperfeiçoamento do
humanismo que repercutirá no cenário externo
à empresa. Esta receberá, em contrapartida,
melhores conseqüências financeiras das
relações de produção, de um público
“interno” que trabalhará com motivação, boa
vontade e de forma consciente. Cria-se,
assim, um circulo de vantagens e resultados
positivos para empresas, empregados e
sociedade. O líder tem a “faca e o queijo”
nas mãos e poderá responsabilizar-se por
parte dessa mudança, promovendo, por
exemplo, conhecimentos cada vez mais
abrangentes às suas equipes de trabalho
ajudando-as a ser mais competentes - basta
imbuir-se de inspirações humanistas. O
conhecimento não é um mero reflexo das
coisas: são representações mentais que
criamos para ordenar nosso entendimento e a
capacidade de operar mudanças no mundo real.
Poderá, também, dar objetividade a esse
conhecimento, além de valorizar a
experiência como fonte de conhecimento.
Qualquer pessoa cresce e se atualiza, apesar
dos fatores sociais, econômicos e familiares
que podem interromper ou dificultar esse
crescimento; mas a tendência fundamental é
em direção ao crescimento. Ser um líder
humanista implica em impedir que a força do
crescimento que foi reprimido volte-se
contra o próprio ambiente, e mais do que
isso, implica em aceitar a pedra fundamental
do humanismo, que é a crença na pessoa como
um ser de positividade e de construção.
Certamente não corrigiremos todos os males
sociais, mas com essa atitude, o líder
ajudará muito na solução dos problemas
psicológicos e sociais. Ajudará o
funcionário a crescer em direção a uma
personalidade mais normal, mais expansiva,
criativa e produtiva.
O sonho principal contido nessas poucas
reflexões é que a liderança humanista
coloque, enfim, o governo em xeque, a partir
do aumento da consciência social nas
empresas, forçando-o a adotar posições
igualmente humanistas. Quanto mais um
governo acredita num ponto de vista
humanista, possibilidades existirão de
promover um clima, no qual as pessoas possam
crescer e trabalhar mais harmoniosamente, e
no qual haverá mais compreensão ou respostas
às suas necessidades. Que todos percebam
que, para a resolução de ano-novo de 2007,
já temos a régua e o compasso; resta-nos
adicionar uma atitude correta, a vontade de
servir, o compromisso com o desenvolvimento
humano (social e economicamente falando)
para, assim, andarmos resolutos em direção
da grande obra humana: a sociedade justa,
sustentada por valores corretos e
consistentes, permeados de fraternidade e
solidariedade. Talvez, uma mera utopia, mas
sempre uma direção.
* Paulo
César T. Ribeiro é psicólogo, consultor
de empresas, sócio-consultor e palestrante
da CONSENSOrh (11.5087-8891, conrh@conrh.com.br).