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DA PROFISSÃO DO PAPALAGUI E DA CONFUSÃO QUE ELA PROVOCA
Comentários de Tuiávii, chefe da tribo Tiaveá na Polinésia, descrevendo aos seus compatriotas suas impressões a respeito dos valores e modo de vida do homem branco, o Papalagui (literalmente, “aquele que furou o céu”)


É difícil dizer o que é profissão, mas todo Papalagui tem uma. É uma coisa que se deve ter muita alegria ao fazer, mas raramente isto acontece. Ter uma profissão significa fazer sempre a mesma coisa, uma só coisa, e tantas vezes que se consegue fazê-la de olhos fechados e sem esforço algum. Se com minhas mãos outra coisa não faço além de construir cabanas ou tecer esteiras, construir cabanas ou tecer esteiras é a minha profissão.

Profissões há para homens e para mulheres. Lavar roupa na lagoa, dar brilho às peles que se põem nos pés, são profissões de mulher; conduzir um navio pelo mar, caçar pombos no bosque são profissões de homem. A mulher larga a profissão assim que se casa; o homem quando se casa é que realmente se consagra à sua profissão. Nenhum álii dá a um pretendente que não tenha profissão. Papalagui sem profissão não pode se casar. Todo homem branco precisa ter uma profissão.

Por isto é que todo Papalagui, muito antes do tempo em que o jovem se tatua, deve decidir que trabalho vai fazer durante a vida inteira. Chama-se isso “escolher uma profissão”. É uma coisa tão importante que dela se fala tanto na aiga quanto do que se tem vontade de comer no dia seguinte. Se o jovem álii quer tecer esteiras, o velho álii leva-o a um homem que só faz isso e que mostrará ao jovem como é que se tece uma esteira. Ele deve lhe ensinar a tecer uma esteira sem precisar olhar o que se faz. É comum levar muito tempo mas, assim que o jovem aprende, larga o seu mestre e, então, se diz: “Ele tem uma profissão”.

Mas se o Papalagui, mais tarde, chega a perceber que prefere construir cabanas a tecer esteira, dizem: “Ele errou de profissão”, o que é a mesma coisa que dizer: “errou o tiro!”. Isso é uma coisa muito séria porque é contra a moral adotar, simplesmente, outra profissão. O Papalagui decente corre o risco de perder sua honra se disser: “Não posso fazer isto, não tenho nenhum prazer”; ou “Minhas mãos não obedecem quando faço esse trabalho!”.

Tem o Papalagui tantas profissões quantas são as pedras da lagoa. Tudo que faz o Papalagui se transforma em profissão. Se alguém junta as folhas murchas da árvore da fruta-pão, é uma profissão; se lava os pratos em que come, é também uma profissão. Tudo que se faz é uma profissão, com as mãos ou com a cabeça. Também é profissão ter idéias ou olhar para as estrelas. Não há, a bem dizer, coisa alguma que um homem seja capaz de fazer que o Papalagui não transforme em profissão.

Quando, então, um Branco diz: “Sou tussi-tussi”, quer dizer: esta é a sua profissão; ele nada mais faz do que escrever uma carta depois da outra. Não enrola a sua esteira e a pendura numa trave, não vai para a cozinha cozinhar uma fruta, não lava os pratos que come. Come peixes, mas não vai pescar; come frutas mas não as tira da árvore. Escreve tussi e mais tussi, e isso é a sua profissão. Da mesma forma como também é profissão: enrolar a esteira e pendurá-la numa trave, cozinhar frutas, lavar pratos, pescar, apanhar frutas. É só a profissão que dá a alguém o direito de ter uma atividade.

É por isso que quase todos os Papalaguis só sabem fazer aquilo que é a sua profissão. Nem o chefe mais importante, que tem a cabeça cheia de sabedoria e o braço cheio de força, é capaz de enrolar e pendurar a sua esteira, de lavar os seus pratos. Também é por isto que aquele que sabe escrever um tussi com várias cores não é capaz de remar numa canoa pela lagoa, e inversamente. Ter profissão quer dizer: saber apenas provar ou apenas cheirar ou apenas lutar; em todos os casos, saber apenas uma coisa. Esse só-saber-fazer-uma-coisa é uma grande fraqueza e um grande perigo porque qualquer um pode se ver, um dia, obrigado a remar numa canoa pela lagoa.

Grande Espírito nos deu as mãos para colhermos as frutas das árvores, para apanharmos os caroços de taros nos pântanos, para proteger-nos o corpo contra os inimigos. Ele nos deu as mãos para nos divertirmos, dançando e brincando, folgando de todos os modos. Não as deu apenas para construirmos apenas cabanas, apenas colhermos frutas ou caroços; mas, sim, para nos servirem, para nos defenderem em todos os momentos, em todas as ocasiões.

O Papalagui não compreende isso; mas que a sua atividade é errada, errada mesmo, contra todos os mandamentos do Grande Espírito, nós o percebemos pelo seguinte: é que existem brancos que já não podem correr pois criam muita gordura no ventre, como os puaas porque tem de estar sempre parados, obrigados pela profissão; já não podem levantar e lançar um dardo pois suas mãos estão muito habituadas a segurar o osso que lhes serve para escrever e eles estão sempre sentados à sombra só escrevendo tussi; não são capazes de dominar um cavalo selvagem porque estão sempre ocupados em olhar para as estrelas ou inventar idéias.

É raro ver um Papalagui que ainda salte, que pule como criança, depois que fica adulto. Pelo contrário, quando anda, arrasta o corpo, como se alguma coisa entravasse o seu movimento. O Papalagui disfarça, nega esta fraqueza, dizendo que correr, pular e saltar não são decentes para um homem importante. Hipocrisia: é que seus ossos estão duros, sem movimento e seus músculos não tem mais animação porque a profissão os fez sonolentos e mortos. E a profissão é também um aitu que destrói a vida; um aitu que ao homem insinua bonitas coisas mas lhe chupa o sangue.

É uma alegria construir uma cabana, derrubar árvores na floresta, talhá-las em forma de estacas, erguê-las, arqueá-las para fazer o teto e, finalmente, depois de amarrar as estacas e tudo mais com fios de coqueiro, cobrí-las com as folhas secas de cana de açúcar. Não preciso dizer-vos como é grande a alegria de toda a comunidade depois de construir todos juntos a casa do chefe; até as crianças e as mulheres participam da festança.

Mas que direis se só alguns poucos homens da aldeia pudessem ir à floresta abater as árvores e talhá-las em estacas? E estes poucos não poderiam ajudar a erguer as estacas porque a profissão deles seria apenas a de derrubar as árvores e talhar estacas? E os que erguessem as estacas não poderiam entrançar os caibros do teto porque, como profissão, teriam apenas a de erguer as estacas; e os que tecessem os caibros não poderiam ajudar a cobrir a cabana com cana porque só teriam que entrançar caibros. Nem todos poderiam ajudar a apanhar cascalho na praia para forrar o chão porque só poderiam fazer isso aqueles que tivessem esta profissão. E só poderiam festejar a construção, inaugurar a cabana aqueles que nela morassem e não aqueles que a tivessem construído.

Estais rindo!... E estou certo de que dirão como eu: “Se tivéssemos o direito de fazer apenas uma coisa e não pudéssemos participar de todos os trabalhos que precisam da força humana, teríamos só metade da alegria, ou talvez nenhuma! “. E por certo chamareis de louco todo aquele que pedisse das vossas mãos apenas um só trabalho, como se todos os outros membros e sentidos do vosso corpo fossem aleijados e mortos.

É daí que vem a miséria maior do Papalagui. É agradável ir buscar água no riacho uma vez, até várias vezes por dia; mas quem tiver de ir buscá-la da manhã à noite, todos os dias, em todos os momentos, enquanto tiver forças, e isso sem cessar, afinal há de enfurecer-se, há de querer romper as correntes que o prendem, pois não há coisa que pese tanto ao homem quanto fazer sempre a mesma coisa.

Ma se só houvesse Papalaguis que, dia após dia, fossem buscar água na mesma fonte, isso ainda poderia até ser para eles muito bom, Mas, não: há uns que apenas levantam ou abaixam a mão, ou empurram um pau numa sala suja, sem luz, nem sol; nada fazem que exija esforço ou dê prazer. No entanto, segundo o modo de pensar do Papalagui, é absolutamente necessário que eles levantem ou abaixem a mão ou empurrem uma pedra pois isso que faz andar ou regular a máquina que fabrica aros de cal, por exemplo, ou peitorais, ou conchas para calças, ou seja o que for. Existem menos palmeiras em nossas ilhas do que na Europa, Papalaguis com o rosto acinzentado porque não gostam do que fazem, nem sequer uma folha com a qual se regozijem.

E é por isto que existe ódio ardente entre os homens que tem profissões diferentes. Todos guardam no coração uma coisa como um animal preso por grilhões, que se rebela sem conseguir soltar-se. Todos estão sempre comparando suas profissões elevadas e baixas, embora todos sejam apenas atividades parciais. O homem, na verdade, não é apenas mão, ou apenas pé, cabeça; é todo um só. Mão, pé, cabeça, são feitos para formarem um todo. Se todos os membros e sentidos trabalham juntos, o coração se alegrará, sadio; não acontecerá isso quando só uma parte tem vida e todas as outras estão mortas. Daí vem a confusão, o desespero, a doença.

Por causa da profissão, o Papalagui vive confuso. É claro que não quer pensar nisso. E, decerto, se me ouvisse falar, diria que sou louco, que quero julgar sem poder porque nunca tive uma profissão e nunca trabalhei como os europeus.

Mas o Papalagui nunca conseguiu nos fazer compreender porque havemos de trabalhar mais do que Deus exige para que possamos comer à vontade, cobrir a cabeça com um teto, nos divertirmos com as festas da aldeia. Talvez este trabalho lhe pareça pouco, e pobre a nossa existência sem profissões. Mas o homem justo, o irmão das nossas muitas ilhas faz o seu trabalho com alegria, jamais com desgosto, Para ele, se não for assim, é melhor nada fazer. E aí é que somos diferentes dos Brancos. O Papalagui suspira quando fala no seu trabalho, como se uma carga o sufocasse; mas é cantando que os jovens samoanos vão para os campos de taro; cantando, as moças lavam as tangas nas correntezas dos riachos. O Grande Espírito não quer, certamente, que fiquemos cinzentos por causa das profissões, nem que nos arrastemos feito tartarugas e os pequenos animais rasteiros da lagoa. Ele deseja que continuemos orgulhosos e tesos em tudo quanto fazemos; que não percamos a alegria de nossos olhos nem a agilidade dos nossos membros.