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O RH E O INÍCIO DE CARREIRAS DOS JOVENS
Paulo César T. Ribeiro
*

 

Estamos próximos de um dos períodos em que as empresas iniciam o recrutamento de jovens profissionais para os Programas de Trainees e Estagiários, que são uma ótima via de acesso para que os jovens possam dar um significativo salto de qualidade em suas vidas profissionais, haja vista a utilização desses programas, por parte das empresas, na preparação de futuros líderes ou de profissionais para as suas necessidades empresariais a médio e longo prazo. É por essa razão que, durante um programa de Trainee, os jovens são completamente submersos nas culturas das empresas, assimilando os seus valores, “vestindo as suas camisas” e “aprendendo a realidade” de cada uma delas, ao mesmo tempo em que são estimulados a se desenvolverem em suas áreas de formação. Logo, tanto para o jovem profissional como para a empresa que se utiliza adequadamente desses programas, é uma perfeita estratégia visando a preparação para o futuro.

Gostaria de fazer alguns comentários para os colegas de RH, pois normalmente o programa de Trainee é coordenado por este profissional, o qual deverá dar uma atenção especial a essa que é uma fase importantíssima não só para a empresa, pelo investimento que representa, como para o jovem, por ser uma experiência que poderá determinar a qualidade do seu futuro profissional. De fato, para muito deles, em programas como o de Trainees ou não, a forma pela qual a carreira está se iniciando poderá determinar o seu futuro, no que tange o interesse e motivação ou, principalmente, no que se refere às relações interpessoais no ambiente de trabalho. Ocorre que os jovens, ao ingressarem em seus primeiros empregos, se confrontam com realidades totalmente diferentes daquelas que conhecem, no que diz respeito às relações interpessoais: logo percebem que há, nos relacionamentos nas empresas, aspectos tão diferentes dos relacionamentos interpessoais “em casa” que, dependendo da maneira pela qual reagem a este “choque”, praticamente estará determinando o seu estilo pessoal nas relações interpessoais futuras, independentemente das posições que venham a ocupar. Um outro ponto é que muitos jovens, apesar do ingresso numa empresa e da busca de independência, resistem em deixar de ser dependentes, gerando um tipo de relação entre eles e seus chefes que poderá dificultar a sua ascensão profissional no futuro, afinal, quem quer um líder que não sabe se conduzir sozinho nos momentos de pressão? Ou que tem que prestar contas, a todo momento, daquilo que está fazendo?

A área de Recursos Humanos, frente a essa experiência profissional, deve agir de modo preventivo, promovendo a aculturação desses jovens em início de carreira e provendo-os com experiências que os farão desenvolvidos técnica, gerencial e psicossocialmente. O RH deve manter total controle sobre esse programa para que seja, para os jovens, uma transição sem traumas, ao mesmo tempo em que administra o clima entre os funcionários mais antigos na empresa, já que para alguns, o ingresso de novos profissionais representa uma ameaça às suas estabilidades. É um verdadeiro jogo de xadrez para os colegas de RH pois ao mesmo tempo em que devem suprir a empresa com “sangue novo” (com funcionários experientes agindo como “orientadores” ou “tutores” dos novos profissionais), deve também cuidar para que os mais antigos não se sintam inseguros em suas posições e não boicotem a preparação dos jovens. Essa dinâmica, se mal conduzida, repercutirá negativamente entre os jovens, ficando para os mais sensíveis e inexperientes, o maior risco de conseqüências ruins no futuro.

Assim, por ser um período de preparação ou transformação de um jovem, inexperiente e, muitas vezes, ingênuo profissional a um ainda jovem, porém experiente, maduro, competitivo, motivado e, preferencialmente, “nada ingênuo” profissional, o profissional de Recursos Humanos deve agir para que todos reflitam sobre questões aparentemente simples mas com alto poder destrutivo nos indivíduos de maior sensibilidade, pois os “abatidos” são lembrados apenas como números, não mais permanecendo nas empresas ou em suas áreas de atuação (nos casos mais traumáticos). Os pontos que merecem atenção, a nosso ver, são:

O que está acontecendo no papel social do jovem em início de carreira? Está havendo uma importante mudança no papel do jovem nessa ocasião: ainda que dependente dos recursos familiares, o jovem já vislumbra a sua independência, logo, quer ser visto como um adulto maduro o mais cedo possível. Ajude-o a tratar das coisas à luz da realidade.

O que o jovem deve esperar dos colegas de trabalho? O melhor..., mas a verdade deve ser dita: nem tudo o que vem dos novos colegas de trabalho é maravilhoso. Ajude o jovem a proteger-se da maldade e neurose dos outros e a reforçar o relacionamento com colegas que são produtivos e colaboradores.

Como estabelecer vínculos saudáveis no novo ambiente de vida? Estimule o jovem a ser autêntico e a mostrar a própria “cara”, dando opiniões e ouvindo a opinião dos outros! Mostre a importância de ser flexível e de assumir as ações do seu grupo. Saliente que ele deve evitar depender dos outros.

Como o jovem deve se relacionar com o chefe? E com a “bronca” e com a pressão dele? O chefe não é o pai do iniciante, ainda que muitos assim o queiram. O papel dele é fazer do jovem, um profissional produtivo; logo, é importante que se entenda o papel gerencial e que, desde que não hajam agressões, o jovem tolere pressão e a “bronca” do seu chefe, afinal, ele também é gente!

E se quiser manifestar uma opinião contrária a todos? O profissional de RH deve ser realista e ensinar o jovem cuidar e burilar a sua opinião para não ser visto como um “fracassomaníaco”, um opositor neurótico e sistemático ou um jovem invejoso. Leve-o a analisar o que ele pode alcançar e a aceitar a posição (melhor, nesse caso) do outro. Se o jovem não estiver nas condições acima, estimule-o a expressar a sua opinião, justificando-a clara e racionalmente.

A quem deve recorrer em momentos de dificuldades? Nos programas de Trainees costuma haver um “tutor”: esse é o melhor socorro. Na ausência de um tutor, em primeiro lugar, o jovem deve recorrer ao seu chefe e, em segundo lugar, ao colega mais experiente e antigo na empresa. A área de RH sempre deve acompanhar tudo de perto.

Como lidar com as expectativas dos velhos amigos e familiares? Mostre ao jovem que ele deve ser transparente quanto às suas intenções de carreira. Muitas vezes os “velhos amigos”, até que se definam em suas profissões, tentam manter o “companheiro” no “velho esquema”. A família, por sua vez, passa a esperar a contribuição daquele que até então, praticamente só recebeu ajuda. Uma solução para isso é uma boa conversa do jovem com todos, esclarecendo o que ele pode e quer fazer pelos demais: uma conversa madura, isto é, enfocando a realidade!

Ora, essas são, de fato, questões simples, mas será que os jovens “dão o tempo necessário” para pensar nelas? Normalmente não. Então, é recomendável, para não perderem os seus aspirantes a brilhantes carreiras, que as empresas, através da sua área de Recursos Humanos, torne essas questões bem claras e conscientizadas por todos; também é particularmente bom, que os aspirantes a Trainees comecem a refletir sobre isso desde já, pois é mesmo uma fase de amadurecimento e distanciamento da proteção familiar, quando passarão a “andar com os próprios pés”.

(*) Paulo Cesar é Psicólogo, Diretor da Ad Vivum Consultoria Organizacional



Ano 2 • nº 15 • São Paulo • 12/07/2004