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TRABALHO E SAÚDE
(Reflexões sobre "O Trabalho Mata?" de Gisèle Richardson)

Paulo Cesar T. Ribeiro*


Qualidade de vida e saúde dos funcionários de uma empresa sempre foram preocupações e responsabilidades da área de RH. Por este motivo, a grande maioria dos profissionais da área já escutou, um dia, queixas de profissionais bem sucedidos, executivos ou não, sobre o excesso de trabalho ao qual, julgam-se submetidos. Nas situações mais dramáticas, essas queixas acabam sendo associadas a graves problemas de saúde e, obviamente, muito pode ser feito para atenuar esse descompasso. Entretanto, o primeiro passo parece-me que seja ir contra a implementação de medidas paliativas e que abrangem apenas efeitos e sintomas, pois a retórica da queixa pode ser questionada, afinal, com o trabalho processamos cultura e criatividade, sendo para a pessoa, fonte de prazer e não um castigo ou punição.

É razoável pensar que trabalhar demais pode levar pessoas bem-sucedidas a distúrbios cardiovasculares e até mesmo à morte prematura? Pelo breve estudo que fiz, a resposta é NÃO! E, para explicá-la, é melhor começar definindo o que é exatamente trabalhar demais. Se há uma, duas ou três gerações, isso significava intensa atividade física, hoje representa longas horas de concentração, de planejamento, de relacionamento com uma equipe. Não há evidências que liguem esse tipo de atividade a um infarto ou outros acidentes do gênero. O ponto principal, de fato, está na postura interior de cada um. É claro que há muitos fatores que podem atuar como precipitadores: fumo, má alimentação, predisposição genética ou hereditária, excesso ou falta de exercícios. Mas é cada vez maior, entre os especialistas, a certeza de que há muitos dados psicológicos envolvidos.

Há alguns anos, cardiologistas norte-americanos concluíram os seus pacientes de ataque cardíaco prematuro eram, de certa forma, o mesmo tipo de pessoa, com um perfil bastante típico. Basicamente, podiam ser descritos como alguém em constante luta contra o tempo, excessivamente preocupado com os prazos, sem conseguir realizar tudo o que se propunha a fazer e raramente satisfeito como o que efetivamente realizava. Além disso, apresentava, entre o que vamos chamar de "sentimentos ruins favoritos", irritação, frustração, raiva e uma generalizada desconfiança em relação às pessoas. Seus apoios emocionais, finalmente, eram mínimos, uma vez que ele não os valorizava a ponto de cultivá-los. Esse tipo de personalidade é conhecido como "Tipo A", sinônimo do profissional que trabalha muito, com alto nível de risco de morte prematura. E agora já se sabe que o trabalhar sem parar, esse "estado de pressa", não é a fonte do excessivo desgaste físico dos "Tipo A". O que gera esse desgaste, na verdade, relaciona-se com aqueles tais "sentimentos ruins favoritos". É um pressuposto hoje muito aceito, o de que cada um de nós, no curso do crescimento, sob a influência de padrões estabelecidos por nossos pais, e como forma de proteção em épocas de vulnerabilidade emocional, acaba por escolher um ou mais dos sentimentos ruins favoritos, para os quais tendemos a voltar quando estamos sob pressão. Então sentimos culpa, impotência, raiva, ressentimento, auto-piedade, inveja, ansiedade, ciúme, rejeição, humilhação, tristeza, entre muitos outros. Em outras palavras, a ligação entre ataques cardíacos e os "Tipo A" vem a ser, não a pressa que caracteriza suas atividades físicas e mentais, mas o hábito de alimentar uma desconfiança hostil e generalizada do mundo, um estado de vigilância suspeita latente. Esperando o pior, um "Tipo A" se defende com a competitividade em busca de respeito, poder, dinheiro.

Há indicações de que, ao rotularmos a nossa reação aos acontecimentos, esse rótulo ocasiona algumas mudanças químicas internas específicas. Em outras palavras, se estou numa montanha-russa, meu corpo vai reagir; se a reação me parece agradável, chamo-a excitação; se me é desagradável, chamo-a de medo. A teoria atual é de que os elementos químicos liberados pelo cérebro são diferentes em cada caso, o mesmo acontecendo com a resposta fisiológica. Desse modo, o estado de alerta constante dos "Tipo A", mantém uma estimulação permanente do córtex, que leva a um habitual excesso de adrenalina no corpo. Para manter esse alto nível de estimulação, que acaba por se tornar "normal", usa-se tudo o que está à mão: o erro de um funcionário, um engarrafamento de trânsito, o sucesso de um concorrente, as mudanças que ocorrem na empresa, etc. E, na falta de acontecimentos que justifiquem a exasperação, alimenta-se uma série de visualizações internas, que insistem em interpretações imaginárias sobre o significado do comportamento dos outros e do ambiente ao redor.

Há, porém, quem trabalhe intensamente sem integrar essa categoria. São pessoas de muita energia, agradavelmente estimuladas por suas atividades, mas capazes de abrir espaços em suas vidas para a intimidade, a emoção, o lazer, as férias, os exercícios. O que acontece, muitas vezes, é que acabam por mesclar-se numa mesma pessoa, os dois tipos de comportamento. E o grau em que essa mescla vai ocorrer é que vai determinar a duração de um processo de reavaliação. Uma terapia é sempre uma ferramenta preciosa, que atuará por mais ou menos tempo, conforme o caso. De uma maneira geral, no entanto, a melhor maneira de atacar o problema é redescobrir que a produtividade no trabalho não deve ser a "fonte da nossa auto-estima". É preciso que se entenda que temos um valor inerente, trabalhando ou não, ganhando a competição com os outros ou não.

Se você suspeita de que algumas de suas motivações para o trabalho podem não ser saudáveis, procure responder a essas questões:

Você tem uma noção clara de seu valor pessoal, sendo ou não produtivo?
Você responde às necessidades de descanso e exercício do seu corpo?
Você equilibra sua vida profissional e pessoal?
Você investe tempo, pensamento e energia em suas relações pessoais?
Você se sente contribuindo positivamente para com seus semelhantes?
Você tem uma noção correta do que é "suficiente": de quanto dinheiro você precisa, de quanto status, de quanto poder?
Você está conseguindo o que quer na vida?

Sejam quais forem as suas respostas, considere estas duas colocações dos doutores Ogilvy e Porter, em artigo para o Human Resource Management: "A realização profissional, quando perseguida insconscientemente para compensar deficiências pessoais, reais ou imaginárias, é, de fato, uma forma de auto-traição. E a capacidade que cada um tem em confrontar a verdade quanto à sua realização profissional e suas necessidades humanas é que determina se a pessoa consegue esquecer a rotina ou se a tendência é prosseguir tentando provar o que, afinal, não pode ser provado pelo sucesso no mundo dos negócios".

* Paulo César T. Ribeiro é psicólogo, consultor de empresas, “coach" e "headhunter", conceituado entre os melhores apresentadores por sua reconhecida experiência em treinamentos voltados ao comportamento gerencial e ao desenvolvimento de líderes, equipes e outros diversos temas. Diretor da CONSENSOrh. Email: paulo.ribeiro@conrh.com.br. Fone: 11.50878897