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TREINAMENTO DE LÍDERES: FOCO NO “TÉCNICO” OU NO “HUMANO”?
Paulo Cesar T. Ribeiro*
 

Ao discutir sobre os temas de um treinamento de líderes, é bem freqüente ser questionado pelos clientes sobre a importância de treiná-los na condução de métodos de operações ou sobre a relação com seus funcionários. Apesar dos inúmeros treinamentos gerenciais especializados, vejo como impossível a dissociação entre essas preocupações, posto que o comportamento gerencial lida com os aspectos humanos e aspectos técnicos simultaneamente. Claro que há consultores experts em temas técnicos e que podem contribuir significativamente para a solução de vários problemas organizacionais. Entretanto, considerando-se a natureza e a efetividade do comportamento de liderança, as habilidades relativas à condução de grupos devem ser sempre levadas em conta, sem deixar de manter o foco nos resultados e no sucesso organizacional, como a discussão proposta a seguir.

O sucesso de uma organização depende:

  • principalmente daqueles que executam, às vezes nos níveis hierárquicos mais baixos, as decisões tomadas nos níveis superiores; de nada adianta decidir bem se a execução é falha.
  • principalmente daqueles que tem responsabilidade pela tomada de decisões.
  • tanto dos que decidem quanto dos que executam; decisão e execução tem igual importância para o sucesso organizacional.

Evidentemente, nesse caso, não há respostas corretas, apenas perguntas adequadas. É verdade que, muitas vezes, uma decisão adequada torna-se inconseqüente pelas falhas de execução. Outras vezes, contudo, será melhor que não se execute eficientemente uma decisão, para que não se perpetrem disfunções incorrigíveis, tão inadequada terá sido a decisão. Por isso, qualquer resposta correta à proposição, seria absurda. Todavia, algumas perguntas adequadas seriam: “O que seria mais disfuncional? Executar eficientemente uma decisão inadequada, executar deficientemente uma decisão inadequada ou executar deficiente uma decisão adequada?

Ao treinar profissionais de liderança, sempre é interessante relembrar alguns conceitos correlacionando execução (eficiência) e decisão (eficácia), haja vista que a importância da discussão entre esses dois conceitos pode ser melhor avaliada quando se atenta para o fato de que a eficiência é um critério de desempenho interno, enquanto a eficácia refere-se ao desempenho externo da organização. No primeiro caso, eficiência, a empresa pode ser concebida como um sistema fechado, ou seja, neutra em relação ao seu ambiente tal qual um relógio que trabalha eficientemente independente da sua situação ambiental. No segundo caso, eficácia, a empresa é concebida como um sistema aberto, isto é, em interação permanente com seu ambiente físico e cultural.

A primeira implicação fundamental da distinção entre eficiência e eficácia é que a eficiência conduz a uma ênfase nos métodos, tarefas, técnicas de operações e normas, enfim, no processamento ou execução mais rápida, com menor esforço e menor custo. Por outro lado, o conceito de eficácia enfatiza as relações externas da organização com o ambiente, a eleição e legitimização de objetivos e a formulação de programas. A segunda implicação critica dessa distinção conceitual está no fato de que, embora eficiência e eficácia devam coexistir, ocorre com freqüência que, em determinadas circunstâncias, elas dissociam-se e a empresa pode ser, ao mesmo tempo, eficaz e altamente ineficiente. De fato, é possível a uma organização ter um processo decisório que garanta decisões adequadas e a conduza a seus objetivos; portanto, ela poderá ser eficaz, não obstante apresente um custo operacional que a caracteriza como ineficiente.

Totalmente válido e necessário é que, na conduta dos líderes, sejam incutidas fórmulas (métodos, novos processos, etc.) que unam a eficiência à eficácia, visando a obtenção do máximo de produtividade. Mas acredito que qualquer que seja a solução técnica, há de se assegurar o auto-desenvolvimento, a satisfação e manutenção ou melhoria do moral dos funcionários, promovendo o reconhecimento da capacidade de cada um e a criação de um clima de coesão pela participação voluntária e ativa dos funcionários da empresa. Nesse sentido, também é importante que o gerente compreenda o conceito de clima organizacional (assunto para outro artigo) porque é através de sua criação que se manejar a motivação dos empregados; a eficiência da empresa pode ser aumentada através da criação de um clima que satisfaça as necessidades de seus membros e, ao mesmo tempo, canalize esse comportamento motivado na direção dos objetivos organizacionais. Além disso, através da análise do clima, o líder poderá avaliar as condições em que um novo método irá funcionar e quais as forças restritivas e impulsoras que irá defrontar. Note que a todo o tempo, o líder atua como identificador das necessidades do ambiente, tradutor dessas necessidades e finalmente, advogado principal dessas necessidades. Isso sugere, naturalmente, a sua responsabilidade pela inovação e uma rara capacidade para distinguir o importante do essencial e concentrar-se nesse último.

A realidade gerencial é mera decorrência dos desafios e imposições da realidade organizacional, e, em última analise, as realidades organizacional e gerencial são necessidades criadas pela realidade ambiental. O inegável em tudo, é o advento de novas tecnologias que modificam rapidamente o ambiente, pressionam a economia e impelem as empresas a formular e alcançar objetivos inovadores e modernizantes. Por isso, não basta mudar: é preciso inovar. O ambiente externo cria automaticamente um desafio à empresa ou à necessidade de novas formas e estratégias organizacionais. A única resposta eficaz, portanto, aos desafios da realidade organizacional é superar os esquemas e estilos tradicionais da organização, inovando-a. Não inovar significa, muitas vezes, perecer, logo, a inovação se apresenta como recurso indispensável para o enfrentamento dos desafios crescentes, no contexto de um futuro que já estamos vivendo. É fácil concluir que essas realidades repercutem sobre a realidade dos líderes, já que, para se inovarem as empresas, há de se começar pela mentalidade destes profissionais, lembrando também que o comportamento inovador depende, em grande parte, da criação de um clima de feedback espontâneo, enfim, de um estilo participativo de liderança.

Um dos motivos que mantém uma equipe motivada é a sua liderança. Um estilo que promova um reconhecimento da capacidade de qualquer funcionário, um estilo que evite o uso de frases inibidoras da criatividade, um estilo que torne o líder, um advogado de bons programas organizacionais, é um estilo muito bem aceito e recomendado no relacionamento com os funcionários. Em administração, a tarefa mais difícil é, sem duvida, a de inventar uma tendência. Criar é um dom; ao implantar, transporta-se a criação para o terreno concreto, vencendo a inércia dos sistemas, o que exige habilidade e força. É a simples ação de dar continuidade o que, muitas vezes, aparece nos relatórios de exercícios administrativos, não exigindo a arte dos que criam nem a capacidade de articular uma visão de futuro realista, atrativa e acreditável para a organização e seus trabalhadores. A melhoria do comportamento gerencial passa, portanto, pela minimização da importância de tarefas mantenedoras, cumpridoras de ordens e inibidoras da criatividade, focadas em estruturas e apoiadas em controles, com a simultânea maximização da originalidade e inovação, das ações com perspectivas de longo prazo, focadas em pessoas, inspiradoras de confiança e geradoras de comprometimento, as quais, são, em sua totalidade, de responsabilidade dos líderes.

* Paulo César T. Ribeiro é psicólogo, consultor de empresas, “coach" e "headhunter", conceituado entre os melhores apresentadores por sua reconhecida experiência em treinamentos voltados ao comportamento gerencial e ao desenvolvimento de líderes, equipes e outros diversos temas. Diretor da CONSENSOrh. Email: paulo.ribeiro@conrh.com.br. Fone: 11.50878897